sábado, 20 de agosto de 2016

PENSAMENTOS DE JOÃO PAULO II

ORAÇÃO

1.- É hora de redescobrir, queridos irmãos e irmãs, o valor da oração, sua força misteriosa, sua capacidade de voltar a nos conduzir a Deus e de nos introduzirmos na verdade radical do ser humano.

2.- Quando um homem ora, coloca-se perante Deus, perante um Tu, um Tu divino, e compreende ao mesmo tempo a íntima verdade de seu próprio eu: Tu divino, eu humano, ser pessoal criado a imagem de Deus.

3.- Em nossas noites físicas e morais, se tu estás presente, e nos amas, e nos falas, já  nos basta, embora muitas vezes não sentiremos o consolo.

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A fé cristã é “per-formativa”

Hoje, Cristo denuncia uma grave deformação da religião autêntica: “Falam e não praticam”. É a “evaporação da fé”: teoria sem obras. A mensagem cristã não deve ser apenas “informativa”, também deve ser “Per-formativa”. O Evangelho não é apenas uma comunicação de coisas que podem saber-se, mas é uma comunicação que implica fatos e muda a nossa vida. A imagem de Deus deve se formar em nós; dia a dia deve acontecer a nossa transformação em Jesus. 

A fé, antes que se “demonstrar”, deve se “monstrar”: é uma mudança em nosso ser. A fé que chega-nos como palavra deve chegar de novo em nós como palavra, na qual agora se expressa nossa vida. A fé vai em primeiro lugar da palavra até a idéia, mas sempre tem que voltar da idéia à palavra e à ação. 

—Senhor, faz que a fé me transforme até que digam de mim que voltei a “nascer”.

 (elaborado com base nos textos de Bento XVI) 
(Città del Vaticano, Vaticano)

sábado, 30 de julho de 2016

Oração na amargura

 Senhor, livra-me de toda amargura e sentimento de rejeição que trago comigo. Cura-me, Senhor. Toca meu coração com tua mão misericordiosa e cura-o, Senhor. Sei que tais sentimentos de angústia não vêm de ti. Envia-me teus santos anjos, que me libertem de toda angústia e mau sentimento. Faze-me também sempre alegre e grato, não obstante as dificuldades de cada dia. Amém. 

 Padre Antonio Francisco Bohn

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Oração, fonte de espiritualidade





Ao longo dos números de 2012 estamos tentando refletir sobre as fontes da vida espiritual. No número precedente fizemos uma longa reflexão a respeito da oração. Precisamos ainda nos debruçar sobre o tema da conversão e do seguimento de Cristo entre os outros. Continuamos, neste número, a tecer algumas considerações ainda sobre o tema da oração. Desejamos transcrever aqui, nesta leitura espiritual, alguns testemunhos sobre a difícil e belíssima aventura da oração.

1. Começamos com um pensamento do cardeal Martini, antigo arcebispo de Milão e incentivador de grupos seletos de Leitura Orante da Bíblia em sua diocese: “A oração é, antes de tudo, resposta à Palavra de Deus que, por primeiro me interpela e me atinge em minha fraqueza, mas também no meu silêncio e na minha capacidade de escuta. A oração é deixar-se acolher pelo mistério santo indo pelo Cristo, no Espírito, rumo ao Pai. Mais do que rezar a um Deus estranho e longínquo, o cristão reza em Deus, reza escondido com Cristo na Trindade, fonte e germe de vida. Então, quando rezares, antes de pensar que és tu que amas a Deus, deixa-te amar por ele, docilmente, cegamente, abandonando-te totalmente a ele, tudo lhe confiando, num espírito de louvor e de ação de graças. Comigo, pergunta a ti mesmo: será que eu encontro momentos em que me coloco face a face com Deus, ouvindo-o e abrindo-me a ele? (Carta Pastoral de 1996). Rezar é deixar-se acolher pelo Mistério. Onde? Na vida, de modo especial na ruminação dos salmos, na meditação antes da aurora explodir, nos dias de retiro que sejam efetivamente de retiro, na tentativa de instaurar grupos sólidos de leitura orante da Palavra.


2. Na linha da escuta da Palavra e oração, um pensamento do Ministro Geral dos Frades Menores: “Se rezar é entrar em relação pessoal com Deus, escutá-lo, far-lhe-a agir segundo Deus na Escritura, o Pai que está nos céus vem carinhosamente ao encontro de seus filhos e com eles fala. Se rezar é responder a Deus depois de tê-lo escutado, na proclamação ou leitura da Palavra o escutamos e lhe respondemos quando devolvemos a Deus a palavra que ele mesmo nos entregou. Se rezar é fazer a experiência de encontro com o Senhor, toda a Sagrada Escritura é uma história de encontros: a grande epopeia do encontro de Deus com os homens e do homem com Deus” (Fr. José Rodriguez Carballo, OFM. Guiados pela Palavra/ Mendicantes de Sentido, n. 12). Ora, o discípulo que ama o Senhor vive na frequência e na persistência desses encontros suculentos com a Palavra no mistério da oração. E na oração responde aos sinais amorosos do Esposo.

3. No dia a dia da vida, o homem não está espontaneamente em consonância com o Senhor. A vida interior cristã é muito mais do que um fenômeno psicológico, de experiência ou contágio de massa, uma exacerbação nervosa da voz e dos gestos. A compreensão definitiva da oração vem da frase lapidar de Paulo aos Gálatas: “Deus enviou aos nossos corações o espírito de seu Filho, que clama: ‘Abba! Pai’ (Gl 4,6)”. Para entrar e perseverar na vida de oração temos que ter a convicção de sermos habitados pelo Espírito que clama, murmura, inspira, respira, intercede e adora no coração humano. A oração é tarefa do Espírito que habita em nós e no coração da Igreja. Michel Hubaut, refletindo sobre a oração de São Francisco, assim escreve: “O Espírito Santo ocupa um lugar importante nos escritos de São Francisco que falam com frequência das “visitas” do Senhor” e da “inspiração” de Deus. Para ele, a vida de oração não é em primeiro lugar alguma coisa que faço, mas uma presença que recebo. Presença que é mais poderosa do que nossos pobres esforços ou sentimentos humanos, que não depende da riqueza de nosso vocabulário nem de nossas formas de viver. As biografias de Francisco estão pontilhadas de expressões chaves como as seguintes: “Movido e fortalecido pelo Espírito”, “no fervor do Espírito”. O segredo da fecundidade de sua vida apostólica e contemplativa é, sem dúvida alguma, sua disponibilidade à ação do Espírito em seu interior. Boaventura escreve: “Toda sua vida interior foi hospitalidade total ao Espírito, uma perfeita docilidade a seus ensinamentos” (cf. Michel Hubaut, El camino franciscano, Estella (Navarra), 1984, p. 54).


4. Sim, não se trata de praticar uma oração mecânica, formal, legalista. Homens e mulheres que vivem no mundo, religiosos contemplativos, consagrados preocupados com a evangelização, entramos na movimento do Espírito. Simples, sinceros, fraternos vivemos em comunidades ou fraternidades e vamos nos esvaziando de nós mesmos e deixando de lado acertos que mais são desacertos e esperamos juntos, na humildade e na confiança, que o Espírito que vive em nós possa nos apontar para o amanha da paróquia, da vida consagrada da Igreja. O Espírito Santo abriu os horizontes de Francisco para um porvir imprevisto. Desperta-se em Francisco uma faculdade interior e ele descobre: o homem está dotado de um sentido interior que ele chama de coração. Se custa ao homem entrar em relação com Deus é porque perdeu o sentido do coração. Francisco encontrou um caminho novo em que o Espírito se une ao nosso espírito.

5. Já insistimos na questão do desejo. Sem desejo de Deus não há oração. Santo Agostinho já dizia: “Um desejo que clama por Deus já é oração. Se queres rezar sempre, nunca deixes de desejar”. Não há dúvida. Cada um organizará sua vida de oração comunitária e pessoal. Temos que consagrar tempo à oração: leitura de um breve texto bíblico, repetição muito singela de palavras que dirigimos ao Senhor que nos ama e nos vê, manter-nos em silêncio num canto, deixando que nosso corpo expresse sua espera por Deus e por sua visita. Há, é claro, esses momentos longos e demorados de aridez e de desgosto na oração: “O tempo que consagro à oração não é tempo que experimento proximidade especial de Deus. Nem consigo fixar minha atenção nos mistérios divinos. Quem dera que assim o fosse! Pelo contrário, os momentos que reservo para a oração estão cheios de distrações, inquietude interior, sonhos, confusão e enfado. Raramente vejo meus sentidos gratificados. Mas o simples fato de me colocar na presença do Senhor e mostrar-lhe tudo o que sinto, percebo e experimento, sem nada esconder, que devo agradar a Deus. No meio de tudo isso, sei que ele me ama mesmo que eu não sinta seu abraço como um abraço humano e não ouça sua voz como ouço uma voz humana” (Henry Nouwen). Vivemos a cultura do entretenimento. Quando não fazemos nada temos a impressão de viver tempos vazios. Por isso fugimos desse “tempo perdido” que para muitos é o tempo da oração. Expressar a Deus nossa espera por ele com palavras simples e mesmo com silêncio pode dar a impressão de ser tempo perdido. Nesses instantes estamos dando tempo ao Senhor para que ele transpareça na trama dos acontecimentos. Sem o que somos seres banais. Sem o que, como cristãos ou religiosos, simplesmente fazemos rodar a máquina fria da organização. Vidas sem alma.

6. O ser humano não foi feito para a mediocridade. Ele é chamado a transcender-se. Não pode perder-se numa horizontalidade de posse ou da satisfação imediata de seus desejos no âmbito do que vai conseguindo obter e ter. Foi escolhido para ruminar no coração a semente da Palavra que aí foi lançada. O orante é aquele que se aplica com zelo à leitura amorosa da Escritura. Os que permanecem na palavra dizem palavras boas, têm um coração bom. Desta forma, vive uma vida em abundância, que vai da ação de graças à súplica até a contemplação. Os cristãos que rezam de verdade atingem maturidade. São seres unificados pelo Espírito. Thomas Merton: “A contemplação é uma compreensão profunda do fato de que, em nós, a vida e o ser procedem de uma Fonte invisível, transcendente e ilimitadamente abundante. A contemplação consiste em ter consciência dessa Fonte… É ser tocado por aquele que não tem mãos, mas é Realidade pura e fonte de tudo o que é real”. Os corações humildes e pequenos ouvem a Palavra e são capazes de alojá-la no mais íntimo de suas vidas, no dia a dia de suas existências e na perseverança àquele que é ontem, hoje e amanhã.

7. Encerro estas reflexões transcrevendo linhas de advertência do Ministro Geral dos OFM sobre a vida de oração: “Penso que seja indispensável avaliar o âmbito (tempo e modalidade) da oração mental no projeto de vida pessoal e fraterna. A fidelidade aos horários e a perseverança são indispensáveis para a vida de oração. Considero também fundamental avaliar com seriedade nossa prática sacramental – Eucaristia e Reconciliação – como também a qualidade e até a frequência de nossas celebrações eucarísticas e a fidelidade à celebração da Liturgia das Horas, conscientes da diferença que existe entre dizer o Ofício divino e celebrar a Liturgia das Horas. Como a vida fraterna, também a vida de oração precisa ser submetida a uma regular avaliação. Seu crescimento depende de uma crítica construtiva: tempo, ritmo, sentido do sagrado. Trata-se de fundamentar o projeto franciscano no tempo de Deus e de convertê-lo numa experiência orante” (Com lucidez e audácia, n. 28)



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O Encontro de São Francisco de Assis com os Leprosos


CONTEXTO SOCIAL DA ÉPOCA DE FRANCISCO


São Francisco de Assis nasceu não se sabe ao certo, se no final de 1181 ou se no início de 1182. Seu pai era conhecido como Pietro Bernadone e sua mãe como Pica. O nome Francisco lhe foi dado por seu pai ao voltar de viagem e encontrá-lo já batizado como João. Queria o pai, Pietro Bernadone, fazer uma homenagem à França, terra onde ele sempre fazia bons negócios comercias, e a sua esposa, que era francesa. Diz-se “de Assis” porque a cidade em que Francisco nasceu fôra Assis, na Itália, cidade que existe até hoje. Nesta lição queremos chamar atenção para dois pontos muito importantes na total compreensão de São Francisco, sua história e o seu movimento.

_ O tempo histórico – de 1181 a 1226, século XII: Idade Média Central.

_ O lugar – Assis, Itália; Europa.

Vamos estudar as características do lugar em que viveu São Francisco, compararmos e vermos semelhanças e diferenças entre aquela sociedade e a de hoje. Há 800 anos atrás, naquela parte da Europa em que estava a Itália, e nela Assis de São Francisco, vivia-se a época medieval: Era a Idade Medieval. Andava-se a cavalo ou a pé. Guerreava-se com lanças e espadas, vestidos em armaduras de metal. As doenças eram tratadas muitas das vezes de forma supersticiosa; o médico era uma mistura de cientista e feiticeiro. Não existia saneamento básico. Não existiam escolas como hoje, e em conseqüência poucos sabiam ler. As pessoas casavam-se segundo o desejo de seus pais, quase sempre por motivos políticos e econômicos. Na política, uma elite mandava, e o povo era uma coisa sem importância. A pessoa valia não pelo fato de ser pessoa, mas pelo título que possuísse, ou pelo trabalho que produzisse. Alguém sem título e que não pudesse trabalhar não possuía qualquer direito dentro da sociedade; eram considerados “marginais”. O clero (Igreja) estava envolvido com esta forma de sociedade, participando de forma direta e indireta em muitos dos abusos e erros que verificamos naquela época. Todos nós temos a nossa vida controlada pela organização política e econômica da nossa sociedade. Naquela época, vivia-se na Europa um sistema social, político econômico denominado Feudalismo.


No Feudalismo, alguém (civil ou religioso) era dono de uma quantidade enorme de terras, e dono também das pessoas que nelas moravam e trabalhavam. Esses senhores “nobres” moravam em castelos e viviam do que seus “servos” produziam. Havia uma espécie de escadinha: os vassalos eram servos do Senhor Feudal,

morando nas terras dele, mas por sua vez tomavam conta de outros menores, os quais eram seus servos. Portanto, os dois, em última análise, eram servos dos senhores feudais, nasciam, cresciam e morriam nesta situação. Se havia um conflito entre senhores feudais, os servos eram os soldados. Em troca de tudo isso recebiam o direito de habitar naquela terra, e recebiam o necessário à sobrevivência. Além disso, os senhores feudais se comportavam como juízes, tendo direito sobre a vida dos seus servos, inclusive de tirá-la. Mas naquele tempo havia uma outra organização social, política e econômica, nas cidades, diferentes do Feudalismo: eram os “comunas”.


A vida social na cidade tinha outros elementos nobres e poderosos, e também outros elementos simples.

As comunas surgiram a partir dos chamados “Homens Livres” que eram aqueles que, de algum modo, se libertavam do senhor feudal, comprando sua liberdade, e tornando-se comerciante ou artesãos. Alguns comerciantes se tornaram ricos pelo poder do dinheiro, tão poderosos que foram acabando aos poucos com a força dos senhores feudais. O pai de Francisco era um desses comerciantes de Assis. Não era nobre, pois não vinha de uma família tradicional, nem tinha título de conde, duque e etc…

Além dos nobres, senhores e comerciantes ricos, uma grande parte do clero, cujo título valia como nobreza, comumente possuíam terras e castelos; e os cavaleiros que eram a elite dos guerreiros, “os heróis”, que pela bravura adquiram títulos de nobreza. Quando Francisco foi para a guerra, ele queria adquirir o título de nobreza, através do heroísmo.


À base de todas essas classes importantes na sociedade daquela época, vinham os artesãos (ferreiro, pedreiros, marceneiro, etc…) e os empregados de alguém. Estes levavam uma vida duríssima, trabalhando mais de 15 horas por dia, sem direito ao descanso, sem direito as férias, folga e etc… muitas das vezes os locais de trabalho eram os piores possíveis, e o salário muito baixo. O pai de Francisco possuía empregados nesta situação. Numa família todos trabalhavam: o pai, a mãe e as crianças. Mais à base de todos, havia a classe dos que não tinham qualquer valor: os marginalizados (deficientes físicos e mentais, doentes e etc…).

Eram poucos os nobres e poucos os ricos. A maior parte era artesãos e empregados. O empregado passava para a classe dos miseráveis em decorrência de alguma doença, ou má sorte qualquer. E havia muitos desses mendigando, fatalmente morriam, pois não havia hospitais e os poucos médicos eram para os ricos e nobres. Francisco, mesmo quando adoeceu, não desceu para classes dos marginalizados graças ao poder do dinheiro do seu pai por isso, já naquela época, todos se apegavam muito ao ter, seja terras, seja dinheiro, porque o valor social do homem era basicamente isso: dar toda minha vida pelo menos por um pouco de ter.

Francisco cresceu no meio disso. Não era um senhor feudal, não era nobre, não era do clero, nem era um cavaleiro, não era um artesão, nem um empregado. Era o filho de um rico comerciante, estava sendo preparado para ser como o seu pai, se possível, adquirir título de nobre (por isso foi para a guerra). Mas um dia ele percebeu que os homens podiam viver num outro tipo de sociedade… Uma Fraternidade de Irmãos no seguimento do Cristo Pobre e Crucificado.

O beijo no leproso

Encontrou-a diante de si no exato momento em que se viu envolvido por duas extraordinárias experiências que lhe abriram um horizonte excitante: o encontro com o leproso na planície de Assis e a voz do Crucifixo que lhe falou em São Damião.

Em 1206, passeando a cavalo pelas campinas de Assis, viu um leproso, que sempre lhe parecera um ser horripilante, repugnante à vista e ao olfato, cuja presença sempre lhe havia causado invencível nojo.

Mas, então, como que movido por uma força superior, apeou do cavalo, e, colocando naquelas mãos sangrentas seu dinheiro, aplicou ao leproso um beijo de amizade. Talvez a motivação para este nobre e significativo gesto tenha sido a recordação daquela frase do Evangelho: “Tudo o que fizerdes ao menor de meus irmãos, é a mim que o fazeis” (Mt 10,42).

Falando depois a respeito desse momento, ele diz: “O que antes me era amargo, mudou-se então em doçura da alma e do corpo. A partir desse momento, pude afastar-me do mundo e entregar-me a Deus”.

1. O encontro com o leproso é um dos episódios mais delicados e sensíveis na vida de Francisco do ponto de vista de sua biografia. O encontro com o leproso foi decisivo no discernimento de sua vocação e coloriu com tintas próprias e fortes sua espiritualidade. Francisco já havia se encontrado com os pobres. Agora estava diante de uma categoria toda especial de pobres, que eram esses seres em decomposição, vivendo da misericórdia dos outros, nas periferias e nos campos. Francisco, na esteira da Sagrada Escritura, compreenderá que Jesus foi um leproso, segundo os textos de Isaías.

2. O famoso episódio do beijo do leproso é relatado por quatro das mais antigas fontes hagiográficas. Na Legenda dos Três Companheiros , 11, lemos o episódio não tão diferente dos outros relatos. Francisco indo de cavalo pelas cercanias de Assis se deu conta que um leproso vinha ao seu encontro. O jovem experimentava uma natural repugnância por esses seres em decomposição. Fazendo grande violência a si mesmo, desceu do cavalo, deu-lhe uma moeda e beijou-lhe a mão. Tendo recebido o ósculo da paz da parte do leproso voltou a montar o cavalo e prosseguiu seu caminho. Francisco vencera-se a si mesmo. O doce tornara-se amargo e o amargo, doce. Tal vem expresso nas primeiras linhas do Testamento do santo: “Foi assim que o Senhor concedeu a mim, Frei Francisco, começar a fazer penitência: como eu estivesse em pecado, parecia-me sobremaneira amargo ver leprosos. E o próprio Senhor me conduziu entre eles, e fiz misericórdia com eles. E afastando-me deles, aquilo que me parecia amargo se me converteu em doçura de alma e de corpo; e, depois, demorei só um pouco e saí do mundo” (Test 1-3). O encontro com estes seres tão pobres fez com que Francisco deixasse a mentalidade do mundo e começasse sua transformação em discípulo sério de Cristo. Foi o começo de sua conversão.

3. O filho de Pietro Bernardone parece desprezar-se a si mesmo. Começava a existir o homem espiritual. Os leprosos não constituem apenas uma primeira etapa de sua caminhada vocacional. O serviço dos leprosos constituiu uma prática constante em sua vida. Vale meditar neste trecho, também da Legenda dos Três Companheiros, 11: “Poucos dias depois, levando consigo muito dinheiro, dirigiu-se ao leprosário e, reunindo todos os leprosos, deu a cada um uma esmola, beijando-lhe a mão. Ao se afastar, o que lhe parecia amargo, mudara-se em doçura. Tanto assim que, como ele contou, no passado, a vista dos leprosos lhe era repugnante de tal forma que, não querendo vê-los, nem mesmo se aproximava de suas habitações e, se por acaso alguma vez lhe acontecesse de passar perto de suas casas ou de vê-los, virava o rosto e tapava o nariz, muito embora, movido por piedade, lhes mandasse esmola por intermédio de outra pessoa. Depois desses fatos, no entanto, por graça de Deus, de tal maneira tornou-se familiar e amigo dos leprosos, que, como ele mesmo afirma no Testamento, gostava de ficar entre eles e humildemente os servia”.

4. “Cuidando dos rejeitados do mundo Francisco começava a ascender à genuína nobreza que buscava, que seria descoberta não nas armas, ou em títulos e batalhas, glórias ou duelos. A honra não estava na companhia dos mais fortes, dos mais atraentes, dos mais bem vestidos ou mais garantidos na sociedade, mas entre os mais fracos, os mais desfigurados, os que estavam marginalizados, dependentes, desprezados (…). Ao dedicar-se ao cuidado dos leprosos, ele tinha ido para além do intelectual e chegara à experiência. No inimaginável sofrimento deles viu a agonia final do Cristo crucificado – o Cristo abandonado e rejeitado, solitário na morte, aparentemente impotente contra a triunfante maldade do mundo” (Francisco de Assis. O Santo Relutante, Donald Spoto, Objetiva, Rio de Janeiro, p.104).

Para continuar a reflexão

1 Celano 17
Três Companheiros 11

Para refletirT

1. O que mais impressiona no tema dos leprosos em Francisco?
2. Quais seriam os leprosos de hoje?
3. Como deveria ser a postura de um franciscano, hoje?

Tempo de Conversão de São Francisco

Francisco não havia entendido ainda que a Igreja que deveria restaurar não era a de pedra, mas a própria Igreja de Cristo, enfraquecida na época por diversas heresias e pelo apego de seus líderes às riquezas e ao poder.

Outro acontecimento que marcou sua vida, foi um encontro com um leproso. Naquela época, os leprosos eram expulsos da cidade, abandonados por suas famílias e fadados a sobreviver com uma doença sem cura e que julgava-se ser um castigo por pecados cometidos pelo doente. O primeiro impulso de Francisco ao avistar o leproso, foi o de fugir. Ele tinha verdadeira aversão aos leprosos antes de sua conversão. Ao invés de fugir, Francisco se aproximou do doente, dando-lhe esmola e um beijo, reconhecendo-o como um irmão. O que Francisco descobre com esse beijo? Descobre que Cristo não é belo e não se veste com mantos de ouro, mas é pobre e crucificado, como o leproso que ele acabara de beijar. E é esse Cristo que deve ser seguido e imitado. E foi o que Francisco fez desse momento em diante. A partir de então, despiu-se de todos os bens materiais e roupas, vestiu uma túnica e passou a se dedicar integralmente aos pobres e leprosos, como se fosse um deles.
Esse momento foi tão importante na transformação de Francisco que, ao final de sua vida, recordava: “Foi assim que o Senhor me concedeu a mim, Frei Francisco, iniciar uma vida de penitência: como eu estivesse em pecado, parecia-me por demais insuportável olhar para os leprosos. Mas o Senhor conduziu-me para o meio deles e eu tive misericórdia para com eles. E, ao afastar-me deles, justamente o que antes me parecia amargo converteu-se para mim em doçura da alma e do espírito”.
Seu pai, enfurecido com as atitudes do filho e temeroso de perder toda a sua fortuna com as doações e projetos de Francisco, deserdou seu filho perante o Bispo. Diante das acusações do pai, na frente do Bispo, e de todos, Francisco tirou as próprias vestes, e nu, as devolveu ao pai dizendo: “Daqui em diante tenho somente um pai, o pai nosso do céu”.


Bernardone exigiu que seu filho lhe devolvesse tudo quanto recebera dele. Francisco, ciente da sentença de Cristo: “Quem ama o seu pai ou a sua mãe mais que a Mim, não é digno de Mim” (Mt 19,29), sem vacilar um momento se despojou de tudo até ficar nu, jogou os trajes e o dinheiro aos pés de seu pai, e exclamou: “Até agora chamei de pai a Pedro Bernardone. Doravante não terei outro pai, senão o Pai Celeste”.

O Bispo, então, o acolheu, envolvendo-o com seu manto. Daquele momento em diante, cantando “Sou o arauto do Grande Rei, Jesus Cristo”, afastou-se de sua família e de seus amigos e entregou-se ao serviço dos leprosos, tratando de suas feridas, e à reconstrução das Capelas e Oratórios que cercavam a cidade.

Cada dia percorria as ruas mendigando seu pão e convidando as pessoas para que contribuíssem com pedras e trabalho na restauração das “Casas de Deus” que estavam em ruínas.

O encontro e o beijo no irmão leproso

Uns dos momentos mais profundos, no processo de conversão de Francisco, foi, sem sombra dúvida, o encontro com um leproso. Seu primeiro impacto com uma pessoa totalmente desprezada na sociedade de seu tempo por ser doente . Sua primeira realidade vivida “nua e crua”. Porém, um encontro que mudaria para sempre sua maneira de vê o outro. Quem foi este leproso? Nós não sabemos e nunca vamos sabe. O que sabemos é que antes Francisco sentia uma repugnância profunda pelos leprosos. Depois, a repulsa ser torno doçura (2). Totalmente envolvido com o mistério de sua mudança interior, onde o Mistério Redentor o subjuga e o fere com o dardo de seu Amor Eterno, se submete a uma prova maior. Antes vivida de maneira natural, agora no rosto desfigurado de um leproso a prova de sua mudança; antes vivida no pecado, agora no amor divino, encontra a imagem do Cristo sangrando na cruz que o deteve e o impeliu na direção daquele leproso,e, este o conduz novamente à essência de sua vida. Certo de que o amor é a única força, a única realidade que une aquilo que está separado, no seu caso, o Verdadeiro Amor que dá coragem de transgredir as leis e as normas humanas. O Amor que dá a coragem de morrer para o outro viver. A partir daí, Francisco torna agradável todas as coisas que antes lhe pareciam amargas e amargas todas aquelas que lhe pareciam doces.


Para Francisco este encontro selava sua última fronteira. Não tinha mais dúvida de que Deus tinha-lhe colocando no caminho certo. O irmão leproso não lhe era mais obstáculo para viver sua ardente felicidade. Estava completamente livre para amor Deus e seus irmãos, sem medo, sem preconceito. Sem especular no que os outros iriam pensar ou falar. Isso não importava. O mais importante agora era está com o irmão desprezado, o problemático,aquele que ninguém quer falar ou conviver. Agora sua companhia tornava-se-lhe agradável e completava sua alegria interior.


É certo que o desejo mais profundo do ser humano é amar e ser amado. A busca deste desejo está na sede de amar sempre, mas só um amor verdadeiro torna a pessoa verdadeiramente feliz. Também é certo de que o maior ato de amor de Deus para com sua criatura foi o de tê-lo feito capaz de amar. Daí, concluímos que o único e mais importante dever do ser humano é aprender a amar. Sendo assim, amar é uma arte divina, que só adquirimos depois de percorremos um longo caminho. Em outras palavras, quando estamos verdadeiramente maduros interiormente, isto é, quando deixamo-nos abrir totalmente à Vontade de Deus. Vale lembrar que, “amar nos torna livres” e livres podemos amor sempre. Na verdade foi isso o que aconteceu com Francisco. Antes do encontra com o leproso percorreu este caminho. “Mas como por graça e força do Altíssimo já tinha começado a pensar nas coisas santas e úteis, quando ainda vivia como secular, encontrou-se com um leproso e, superando a si mesmo, aproximou-se e o beijou. Apartir de então foi ficando cada vez mais humilde até conseguir vencer a si mesmo, por misericórdia do Redentor”.


Nunca saberemos quem foi o leproso que se encontrou com Francisco. Também podemos afirma com toda certeza que nem Francisco teve o privilegiou de conhece está pessoa antes de sua doença, porém, podemos traçar sua aparência física: ‘monstruosamente mais infeliz deste mundo’, ‘pedaços de carne podre’, ‘corpo coberto de chagas purulentas’, ‘em suas mãos, pés e face, muitas feridas’. Foi com este leproso horrível que Francisco se aproximou e beijou-o na boca. Sim, Francisco beijou-o na boca. Mais não só a boca, mas a mão, a face e até as chagas purulentas. E aqui, vem uma pergunta: O que significa este basium?. Significa nas fontes franciscanas o beijo da paz, isto é, o beijo da caridade e da união. O Sopro da vida, o hálito que alenta, o toque que refaz. Francisco ao beijar o leproso, recebe também o toque de quem tem o último sopro de vida e da esperança, o último fio de confiança.


Depois deste encontro, Francisco entendeu que não “bastava contemplar Deus na cruz ou fazer uma meditação diante dele preso numa cruz e suspenso sobre o altar. Não, ele estava ali, no chão, no corpo do leproso. Desta forma consegue descobrir-lo, servi-lo e ama-lo”. Chamava-os de irmãos cristãos porque encontrava neles de modo mais eloqüente a imagem e semelhança com Cristo. E não aceitava que ninguém tratasse mal nenhum deles. Certa vez, Francisco respondeu com tom repreensivo há um frade que ao vê um irmão cristão chegar com convento, tratou-o com certa ingenuidade, apesar de ter recebido ordens do próprio Francisco para que o tratasse bem. “Não deves agir dessa maneira com o nosso irmão cristão, porque não é bom, nem para ti nem para ele”. Porém, o que Francisco pedia sempre aos seus frades era que eles dedicassem seu tempo e serviço, com respeito e caridade a todos os irmãos cristãos por amor de Deus.

O encontro e o beijo com o irmão leproso na vida de Francisco no início de sua conversão, ajuda-nos a refletir sobre a repugnância vencida, muitas vezes presente ao longo de nossa caminhada fraterna. Lembra-nos que podemos vencer todas as barreiras que nos afasta de nossos irmãos, sejam eles leprosos ou não. Lembra-nos também que a conversão pessoal, o Amor Eterno presente no meio de nós e o dialogo fraterno serão tanto mais vivos quanto mais intensos forem nossos encontros, superando diferenças e quebrando mitos. Que o exemplo do Seráfico Pai São Francisco nos ajude a vivermos como verdadeiros irmãos e principalmente verdadeiros cristãos. Amém!

http://www.ifrans.org.br/o-encontro-de-sao-francisco-de-assis-com-os-leprosos/

domingo, 3 de julho de 2016

AKATHISTOS AO DULCÍSSIMO SENHOR JESUS CRISTO!

Criador dos anjos e Senhor das potências, abre a minha mente impotente e a minha língua para louvar o teu nome puríssimo, como outrora abriste os ouvidos e a língua do surdo-mudo, para que eu possa invocar-te assim:

“Jesus admirabilíssimo, admiração dos anjos;

Jesus fortíssimo, salvação dos progenitores;

Jesus dulcíssimo, orgulho dos patriarcas;

Jesus gloriosíssimo, sustento dos soberanos;

Jesus amabilísimo, realização dos profetas;

Jesus venerabilíssimo, salvação dos mártires;

Jesus silenciosíssimo, alegria dos monges;

Jesus piedosíssimo, doçura dos sacerdotes;

Jesus misericordiosíssimo, abstinência dos que jejuam;

Jesus dulcíssimo, júbilo dos santos teus semelhantes;

Jesus eterno, salvação dos pecadores;

Jesus, Filho de Deus, tem piedade de mim!”

Soberano Senhor, Jesus Cristo, meu Deus, que pelo teu indizível amor para com o homem assumiste, no fim dos tempos, um corpo humano da sempre virgem Maria, eu, teu servo, canto a tua salvífica providência, ó Soberano.

Eu te louvo, porque por ti conheci o Pai.

Eu te bendigo, porque por ti o Espírito Santo veio ao mundo.

Prostro-me diante da tua puríssima Mãe terrena, que foi o instrumento para o cumprimento de um tão tremendo mistério.

Celebro as tuas falanges angélicas que exaltam e servem a tua magnificência.

Venero João, o Precursor que te batizou, Senhor.

Honro os profetas que te preanunciaram. Glorifico os teus santos apóstolos, exalto os mártires,

louvo os teus sacerdotes, me inclino aos teus santos, festejo os teus justos.

Este inumerável e indizível coro divino eu, teu servo, o apresento a ti em súplica, ó Deus generosíssimo, e pelos seus méritos peço perdão das minhas faltas.

Concede-me pela intercessão de todos os teus santos, especialmente pela tua generosidade, porque tu és bendito nos séculos. Amém.


(Texto: http://www.ecclesia.com.br/).

sábado, 2 de julho de 2016

Sinal da cruz

"... fazer o Sinal da Cruz antes e depois das refeições para ‘divinizar-santificar’ a comida e agradecê-la.

Como diz S. João Crisóstomo : ‘'não sejais como os porcos e os brutos, que se alimentam dos bens de Deus sem Lhe agradecer nem levantar os olhos para a Mão que lhes dá essa comida'’’.

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Precisamos usar as armas que Jesus Cristo deixou para continuar a luta diária. A oração, a busca pelos sacramentos, missa, meditação da palavra de Deus, confissão, o santo rosário, a caridade, o despojamento além de outros são armas essenciais para o combate, já que o Salmo 50 nos diz: o pecado está sempre em minha frente. Promover a pessoa humana em todos os aspectos é o essencial, restituir a dignidade humana inserindo os filhos excluídos de volta a vida, Jesus Cristo foi o maior exemplo disso, Pe. Pio entedeu isso e nós precisamos continuar...

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